Eu estava sentado em um salão de conferências em Rio Branco, estado do Acre, Brasil.
Minha mente estava em um sanatório de Argel, Argélia.
Foi para lá que enviaram minha mãe quando ela era criança.
Disseram a ela que tinha contraído tuberculose porque era uma “indigène musulman”.
Em 1938, ano em que minha mãe nasceu e após mais de um século de colonização, cerca de 5 a cada 100 pessoas argelinas eram infectadas com tuberculose a cada ano.
Relatórios coloniais franceses mostram que os argelinos morriam de tuberculose em taxas muito mais altas do que os colonos franceses.
Eles diziam que a doença era comum por causa da suposta inferioridade do nosso povo.
E que ela ia morrer.
O colonialismo é mentiroso.
Ela sobreviveu.
E levou menos de oito anos para que uma Argélia independente, livre da praga do colonialismo, eliminasse a praga da tuberculose.
Ouvindo os líderes no Primeiro Seminário Nacional sobre Saúde Indígena e Mudanças Climáticas do Brasil, ouvi essa mesma mentira sendo desfeita.
O corpo do território, o corpo do povo
Eu escutei.
Ouvi um diagnóstico específico de suas terras e histórias. Reconheci um padrão familiar.
O território é um corpo vivo, disseram.
Quando ele adoece, nós adoecemos.
Ceiça Pitaguary é uma liderança indígena e ativista do povo Pitaguary no Brasil.
A crise, ela explicou, é uma realidade diária de “secas prolongadas, inundações devastadoras, tempestades intensas e aumento de temperaturas” que representa “perdas reais vividas no corpo e no território”.
Esta é uma ferida com muitas camadas.
Há os sintomas físicos que um epidemiologista reconheceria. Doenças respiratórias causadas pelo fogo. Doenças transmitidas pela água causadas por inundações.
Mas a doença mais profunda que os palestrantes diagnosticaram, um após o outro, é uma deterioração do sistema.
Ouvi quando Wallace Apurinã afirmou que quando as inundações chegam, “a medicina tradicional, que é um conhecimento tão importante e fundamental para nossa subsistência… isso acaba”.
É uma crise que cria o que Elisa Pankararu chamou de “tristeza coletiva”.
“Nosso povo está triste”, ela disse, porque o mundo está em desequilíbrio.
Esta é uma ferida espiritual, como a que Juliana Tupinikim descreveu.
Ela disse que o povo Krenak perdeu não apenas um rio para um desastre de mineração, mas “elementos fundamentais de sua espiritualidade e identidade cultural”.
A crise, Gemina Shanenawá insistiu, não é abstrata.
“Tem um rosto, um nome e um território. O rosto das mulheres indígenas”.
Ela deu voz à luta delas. “’Perdi tudo, perdi minha casa, perdi meus porcos, minhas galinhas. E agora? O que vou fazer?’”.
A arquitetura do fracasso
Há um causador de doença pior do que o combustível fóssil.
É o colonialismo.
Reconheci seu cheiro no testemunho dos líderes.
É um sistema feito para falhar com os mais vulneráveis.
Weibe Tapeba, Secretário de Saúde Indígena do Brasil, descreveu a paralisia.
“Hoje, nossos territórios indígenas não são entendidos como unidades federais”, ele disse.
Isso significa que eles não conseguem emitir decretos importantes por conta própria. Isso prejudica muito sua capacidade de se preparar, responder e se recuperar de eventos catastróficos cada vez mais frequentes.
“Não temos a autonomia de emitir tal decreto por nós mesmos”.
Essa falta de poder intencional deixa as comunidades expostas.
Cria a reação em cadeia que a pesquisadora Renata Gracie detalhou no território Yanomami. A mineração ilegal leva diretamente a “um enorme aumento na ocorrência de malária, tracoma, sarampo, tuberculose, desnutrição”.
A resposta do estado está mudando. Cestas de alimentos culturalmente inadequadas foram um exemplo que ouvi.
Foi impressionante ver como o governo, com liderança de Tapeba e outros, se envolve em um diálogo significativo e aberto feito por e para as comunidades indígenas.
O que você chama de história pessoal, nós chamamos de ciência ancestral
Uma violência invisível, mas profunda, da colonização é ignorar a forma como um povo conhece o mundo.
A ciência de vocês são “dados”.
A nossa é “folclore”.
O seminário inteiro foi uma rebelião contra essa mentira.
Na minha própria apresentação, falei sobre como a experiência dos profissionais de saúde — o que eles sabem porque estão lá todos os dias — é frequentemente vista como apenas “história pessoal”.
Putira Sacuena deu a resposta mais forte.
Ela contou sobre um pequeno sapo no território do Xingu.
“Paramos de ouvir o som dele no território”, ela explicou.
O silêncio do sapo anunciava o aumento de doenças respiratórias e diarreia.
Ela disse: isso é ciência ancestral.
É um sinal de um sistema muito sofisticado de observação do meio ambiente, que existe há muitas gerações.
Nossos sistemas atuais não apenas deixam passar esses dados.
Eles não conseguem nem reconhecer isso como dado.
O desafio, então, é começar o trabalho de desaprender os preconceitos coloniais que nos impedem de ver o conhecimento que está bem na nossa frente.
Isso exige que deixemos o “terreno alto e difícil” da nossa experiência que só olha para si mesma.
A luta pela saúde aqui é, mais do que imaginávamos, uma luta pela justiça cognitiva. É uma exigência de que esse conhecimento seja visto não como algo cultural, mas como dados essenciais.
Como declarou Ceiça Pitaguary, “A luta contra a crise climática não será vencida sem os povos indígenas”.
Isso não é um slogan político.
É uma verdade vital e científica do nosso tempo.
Isso exige que nós, nas nossas instituições e áreas de trabalho, acabemos com os sistemas que estão causando essa devastação.
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